UBARANA GANHA NOVO VALOR E TRANSFORMA A RENDA DE MULHERES EM MAGÉ

Mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé transformam peixe pouco valorizado comercialmente em fonte de renda, valorização cultural e fortalecimento da economia local.

Publicado em 23 de agosto de 2026

Uma culinária criativa pode ir muito além do prato servido à mesa. Em Magé, na Baixada Fluminense, o conhecimento tradicional de mulheres ligadas à pesca e aos manguezais vem ajudando a transformar um pescado que durante muito tempo teve pouco valor comercial em uma oportunidade de geração de renda e fortalecimento da economia comunitária.

A experiência é desenvolvida por mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM), que encontraram na culinária uma forma de agregar valor aos produtos da pesca artesanal. No centro dessa iniciativa está a ubarana, peixe tradicionalmente encontrado na região e que, apesar de fazer parte da realidade dos pescadores locais, não era considerado uma das espécies de maior interesse comercial.

A partir da criatividade e dos saberes transmitidos entre gerações, a ubarana passou a ganhar novos usos na cozinha. O pescado, antes pouco valorizado, começou a ser aproveitado na elaboração de diferentes preparos, mostrando que produtos disponíveis na própria comunidade podem se transformar em novas possibilidades econômicas quando associados ao conhecimento tradicional.

SABER TRADICIONAL COMO FONTE DE RENDA

A iniciativa também evidencia o papel das mulheres na economia das comunidades pesqueiras. Ao transformar o pescado em produtos culinários, elas deixam de atuar apenas na etapa de preparo dos alimentos e passam a participar diretamente da agregação de valor, comercialização e construção de novas alternativas de renda.

A proposta se aproxima dos princípios da economia solidária, na qual o trabalho coletivo, a valorização dos saberes locais e o aproveitamento dos recursos disponíveis na própria comunidade são utilizados para criar oportunidades de geração de renda.

Nesse contexto, a culinária se torna uma ferramenta de transformação social. Um peixe que anteriormente poderia ser vendido por um valor reduzido passa a representar uma cadeia de possibilidades, envolvendo produção, preparo, comercialização e divulgação da cultura alimentar local.

VALORIZAÇÃO DA PESCA ARTESANAL

A experiência também contribui para dar maior visibilidade à pesca artesanal e aos trabalhadores que dependem dos manguezais e dos ambientes costeiros para sobreviver.

Magé possui uma relação histórica com a Baía de Guanabara e com seus manguezais. Esses ambientes são fundamentais para a biodiversidade e também fazem parte do cotidiano de diversas comunidades tradicionais que retiram deles parte de seu sustento.

Ao aproveitar espécies pouco valorizadas comercialmente, iniciativas como a da ACAMM ajudam a reduzir o desperdício e estimulam uma relação mais próxima entre produção, alimentação e território.

A valorização da ubarana também representa uma mudança de olhar sobre aquilo que já existe na comunidade. Em vez de depender exclusivamente de produtos considerados nobres ou de maior procura, os moradores podem encontrar novas oportunidades justamente em recursos que anteriormente eram pouco explorados comercialmente.

DA PESCA PARA A COZINHA

O trabalho das mulheres demonstra como a criatividade pode modificar a percepção sobre determinado alimento. Técnicas culinárias, receitas e formas de apresentação ajudam a transformar o pescado em um produto com maior valor agregado.

Esse processo beneficia não apenas quem prepara e comercializa os alimentos. Ele pode movimentar toda uma cadeia formada por pescadores, fornecedores, cozinheiras, comerciantes e consumidores.

A experiência reforça ainda a importância de preservar conhecimentos tradicionais. Receitas e formas de aproveitamento dos pescados são parte da cultura das comunidades e podem desaparecer quando as novas gerações deixam de ter contato com esses saberes.

Ao transformar esses conhecimentos em atividade econômica, as mulheres também contribuem para sua preservação.

ECONOMIA LOCAL E AUTONOMIA

Mais do que uma alternativa gastronômica, o aproveitamento da ubarana representa uma possibilidade de autonomia financeira para mulheres que vivem em comunidades ligadas à pesca.

A geração de renda a partir de recursos locais pode contribuir para melhorar as condições econômicas das famílias e ampliar a participação feminina nas decisões relacionadas à produção e à comercialização.

O modelo também mostra que desenvolvimento econômico não precisa estar necessariamente associado a grandes empreendimentos. Pequenas iniciativas comunitárias, quando organizadas e valorizadas, podem gerar impactos importantes no cotidiano de quem vive no território.

MANGUEZAL, CULTURA E SUSTENTABILIDADE

A relação com o manguezal está no centro dessa história. Além de fornecer recursos para as comunidades pesqueiras, o ecossistema exerce funções ambientais essenciais, como proteção da costa, abrigo para diversas espécies e manutenção de cadeias alimentares.

Por isso, iniciativas que valorizam a pesca artesanal também podem contribuir para ampliar a consciência sobre a importância da preservação desses ambientes.

A experiência da ACAMM mostra que cultura, gastronomia, meio ambiente e economia podem caminhar juntos. Ao transformar um pescado pouco valorizado em alimento e fonte de renda, as mulheres demonstram que o conhecimento tradicional pode ser uma ferramenta importante para construir novas oportunidades sem romper a ligação histórica das comunidades com o território.

A história da ubarana em Magé é, portanto, também uma história de valorização. Valorização do pescado, do trabalho das mulheres, da pesca artesanal, dos saberes tradicionais e dos próprios manguezais.

Em um cenário no qual comunidades tradicionais enfrentam desafios econômicos e ambientais, iniciativas como essa mostram que a solução pode estar, muitas vezes, nos próprios recursos e conhecimentos existentes no território  basta encontrar novas formas de enxergá-los e transformá-los em oportunidades.

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