Meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 está ameaçada.

Publicado em 28 de julho de 2026
O mundo alcançou avanços históricos no enfrentamento ao HIV, mas corre o risco de perder parte das conquistas obtidas nas últimas décadas. Um novo balanço do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) alerta que cortes de financiamento, desigualdades no acesso aos serviços de saúde e retrocessos relacionados aos direitos humanos podem provocar um ressurgimento da epidemia.
Segundo dados preliminares divulgados pelo UNAIDS, as mortes relacionadas à AIDS caíram 57% entre 2010 e 2025. O número passou de aproximadamente 1,3 milhão de mortes em 2010 para cerca de 570 mil em 2025. Apesar da queda expressiva, a agência considera a mortalidade ainda elevada para uma doença que atualmente pode ser controlada com tratamento adequado.
O UNAIDS destaca que os avanços alcançados são reais, porém frágeis. Mudanças no financiamento internacional ocorridas principalmente a partir de 2025 afetaram programas de prevenção, testagem e serviços comunitários destinados às populações mais vulneráveis.
Dados citados pela agência indicam que o financiamento externo destinado aos diferentes setores de desenvolvimento caiu 23% em 2025 na comparação com o ano anterior. Países mais dependentes de recursos internacionais passaram a buscar fontes domésticas emergenciais para preservar principalmente o fornecimento de tratamento antirretroviral.
Meta de 2030 ameaçada
O compromisso internacional é acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030. Para isso, a nova Estratégia Global para AIDS 2026–2031 estabelece, entre outras metas, chegar a 40 milhões de pessoas vivendo com HIV em tratamento e com supressão viral e garantir que 20 milhões tenham acesso a opções de prevenção baseadas em antirretrovirais.
A estratégia prevê ainda uma redução de 90% tanto nas novas infecções pelo HIV quanto nas mortes relacionadas à AIDS, em comparação aos níveis registrados em 2010.
O problema é que o mundo não alcançou plenamente as metas intermediárias estabelecidas para 2025. Sem uma nova aceleração das ações, o objetivo de 2030 pode ficar fora de alcance.
A agência estima que serão necessários aproximadamente US$ 21,9 bilhões por ano até 2030 para alcançar as metas relacionadas ao HIV nos países de baixa e média renda. Em 2024, antes das grandes reduções de financiamento observadas posteriormente, estavam disponíveis US$ 18,7 bilhões, uma diferença de quase 15% em relação ao necessário.
Prevenção é uma das principais preocupações
Os cortes atingem justamente áreas consideradas fundamentais para impedir novas transmissões. Entre elas estão programas de testagem, distribuição de preservativos, profilaxias baseadas em medicamentos antirretrovirais e iniciativas comunitárias direcionadas às populações mais expostas ao HIV.
O cenário ocorre no momento em que novas tecnologias ampliam as possibilidades de prevenção. Medicamentos antirretrovirais de longa duração, por exemplo, são apontados pelo UNAIDS como uma oportunidade importante para acelerar o controle da epidemia. No entanto, para que produzam impacto em escala global, essas tecnologias precisam chegar às populações que mais necessitam delas.
Direitos humanos entram no alerta
O relatório também chama atenção para mudanças políticas e legais em diferentes países.
Segundo o UNAIDS, direitos relacionados à igualdade de gênero, saúde sexual e reprodutiva e às pessoas LGBTQI+ estão sob pressão em diversas partes do mundo. Países adotaram ou endureceram legislações contra relações entre pessoas do mesmo sexo, situação que pode afastar populações vulneráveis dos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Para a agência, combater o estigma e a discriminação é parte essencial da estratégia sanitária. Quando determinados grupos evitam unidades de saúde por medo de perseguição, criminalização ou preconceito, aumentam as dificuldades para realizar testes precocemente e iniciar o tratamento.
Tratamento também funciona como prevenção
A expansão da terapia antirretroviral é considerada um dos principais fatores responsáveis pela redução das mortes relacionadas à AIDS.
Com diagnóstico precoce e uso correto dos medicamentos, pessoas vivendo com HIV podem alcançar carga viral indetectável e manter qualidade e expectativa de vida significativamente maiores. A supressão viral também é fundamental para interromper a transmissão sexual do vírus.
Por isso, uma eventual interrupção no fornecimento de medicamentos ou na estrutura de acompanhamento dos pacientes representa uma preocupação adicional.
Países terão de assumir maior responsabilidade
Uma das principais mudanças defendidas na Estratégia Global para AIDS 2026–2031 é a redução da dependência de modelos sustentados predominantemente por doadores internacionais.
O UNAIDS propõe ampliar o financiamento doméstico, integrar os serviços de HIV aos sistemas nacionais de saúde e fortalecer a atenção primária e as organizações comunitárias.
A agência considera que a sustentabilidade será decisiva não apenas para alcançar as metas de 2030, mas para manter os resultados posteriormente. Mesmo com o eventual fim da AIDS como ameaça à saúde pública, milhões de pessoas continuarão vivendo com HIV e necessitando de tratamento e acompanhamento permanente.
Avanços podem ser perdidos
O alerta das Nações Unidas surge justamente em um momento contraditório. A humanidade dispõe de medicamentos capazes de controlar o HIV, estratégias eficazes de prevenção e novas tecnologias que podem reduzir ainda mais as transmissões.
Ao mesmo tempo, dificuldades econômicas, conflitos, desigualdades, cortes na ajuda internacional e retrocessos sociais ameaçam a estrutura construída durante décadas de combate à epidemia.
Para o UNAIDS, ainda existe um caminho viável para alcançar o objetivo de 2030. A nova estratégia calcula que o cumprimento das metas poderá evitar aproximadamente 3,3 milhões de novas infecções pelo HIV e 1,4 milhão de mortes relacionadas à AIDS entre 2025 e 2030.
O desafio, portanto, deixou de ser apenas científico. O mundo já dispõe de grande parte das ferramentas necessárias. A questão agora é garantir financiamento, acesso aos medicamentos, sistemas de saúde sustentáveis e políticas que permitam que prevenção, diagnóstico e tratamento cheguem a quem mais precisa.

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