Denúncias apontam contratos bilionários, possível direcionamento em licitações do DER-RJ e prioridade à arrecadação em detrimento da segurança nas estradas estaduais.

11 de maio de 2026
O avanço da chamada “indústria de multas” no Estado do Rio de Janeiro voltou ao centro das discussões públicas após denúncias de possíveis irregularidades milionárias envolvendo a nova licitação do Departamento de Estradas de Rodagem do Rio de Janeiro (DER-RJ) para instalação de 302 radares em rodovias estaduais.
Enquanto motoristas enfrentam diariamente buracos, pistas sem acostamento, iluminação precária e falta de manutenção básica, o governo estadual amplia de forma agressiva o número de equipamentos de fiscalização eletrônica. A medida, apresentada oficialmente como estratégia de segurança viária, vem sendo interpretada por críticos, parlamentares e parte da população como um projeto de arrecadação disfarçado de prevenção.
O caso ganhou contornos ainda mais graves após o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) abrir investigação para apurar suspeitas de direcionamento de licitação, formação de cartel e ausência de competitividade real entre empresas participantes do certame.

As denúncias foram formalizadas pelo deputado estadual Vitor Júnior, (foto acima), e apontam indícios considerados alarmantes por especialistas em contratos públicos.
A diferença de um centavo que levantou suspeitas
Um dos episódios mais simbólicos da investigação envolve a diferença de apenas R$ 0,01 entre propostas apresentadas em um dos lotes da licitação.
Na prática, críticos afirmam que situações desse tipo raramente são vistas como coincidência em processos públicos dessa magnitude. O episódio reforçou suspeitas de “cartas marcadas”, combinação prévia de preços e divisão antecipada de mercado entre empresas que já teriam atuado juntas em outros estados brasileiros.
Os números impressionam. O contrato inicial gira em torno de R$ 230 milhões, mas pode ultrapassar R$ 1 bilhão com renovações previstas ao longo dos próximos dez anos.
Para muitos especialistas, o mais preocupante não é apenas o valor envolvido, mas a sensação crescente de que a prioridade da máquina pública deixou de ser a recuperação das estradas para se concentrar na ampliação da arrecadação por multas.

Rodovias esquecidas e radares multiplicados
Ao todo, 390 novos equipamentos serão disponibilizados em toda a malha estadual
O contraste é visível em diversas regiões do estado.
Enquanto moradores denunciam abandono de trechos estaduais e cobram obras emergenciais, o número de radares previstos pode saltar de 88 para cerca de 390 equipamentos.
A realidade enfrentada por milhares de motoristas fluminenses inclui crateras no asfalto, sinalização insuficiente, falta de iluminação e ausência de manutenção contínua. Em alguns municípios, moradores e prefeituras relatam precisar realizar intervenções improvisadas para reduzir riscos de acidentes diante da omissão do poder público.
Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), parlamentares já apontaram que há estradas onde o estado praticamente desapareceu, mas os radares continuam chegando em velocidade recorde.
A crítica central é direta: antes de punir motoristas, o governo deveria garantir estradas minimamente seguras.
Segurança ou arrecadação?
O DER-RJ argumenta que os equipamentos são instalados em pontos estratégicos com histórico de acidentes e que a fiscalização eletrônica contribui para salvar vidas.
Mas o discurso institucional não tem sido suficiente para conter o desgaste político.
Motoristas questionam como o estado pode justificar bilhões em fiscalização eletrônica enquanto ignora problemas estruturais básicos das rodovias estaduais. Em muitos trechos, a combinação entre radares, má conservação e insegurança pública acaba gerando outro efeito: freadas bruscas, congestionamentos inesperados e maior vulnerabilidade a assaltos.
Para críticos da política atual, a população começa a enxergar os radares não como instrumentos educativos, mas como símbolos de um estado que pune mais do que protege.

O peso político por trás do DER-RJ
O debate também escancara como órgãos técnicos acabam inseridos nas disputas políticas por influência e contratos públicos.
O atual presidente do DER-RJ, Pedro Henrique de Oliveira Ramos, possui perfil técnico e passagem por diferentes funções na área de obras públicas. Ainda assim, sua permanência no comando do órgão ocorre dentro de um ambiente marcado por fortes articulações políticas.
O DER-RJ se tornou peça estratégica dentro das disputas por controle de obras, contratos e influência regional no estado.
Pedro Henrique foi inicialmente ligado ao grupo político do ex-presidente da ALERJ, Rodrigo Bacellar, e permaneceu no cargo mesmo após mudanças no cenário político estadual, sustentado pela confiança do governador Cláudio Castro.
Nos bastidores, parlamentares admitem que contratos bilionários ligados à infraestrutura viária movimentam interesses políticos de enorme impacto eleitoral.
O eleitor diante das urnas e a importância das escolhas do seu voto
O caso dos radares ultrapassa a discussão sobre trânsito. Ele abre um debate mais profundo sobre o modelo de gestão pública que vem sendo praticado no estado do Rio de Janeiro.
Em ano eleitoral, cresce a responsabilidade do eleitor em observar quais parlamentares realmente defendem melhorias estruturais para a população e quais permanecem alinhados a políticas focadas prioritariamente em arrecadação e contratos milionários.
A discussão não envolve apenas radares. Envolve prioridades.
Quando estradas permanecem abandonadas enquanto bilhões são direcionados para fiscalização eletrônica, parte da população passa a questionar se o interesse público continua sendo o centro das decisões políticas.
As próximas eleições para a ALERJ podem representar mais do que simples renovação de cadeiras parlamentares. Para muitos fluminenses, será a oportunidade de cobrar coerência, transparência e compromisso real com infraestrutura, segurança e qualidade de vida.
Porque, no fim, o voto continua sendo o radar mais poderoso que a população possui contra políticos que governam olhando primeiro para contratos e arrecadação, e só depois para as necessidades reais do povo.

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