Análise sobre o perfil dos parlamentares eleitos aponta desafios para o avanço de políticas de proteção ambiental, combate às mudanças climáticas e transição energética no Brasil.

Publicado em 11 de outubro de 2026
A nova legislatura do Congresso Nacional, que tomará posse em fevereiro de 2027, deverá enfrentar desafios para avançar na agenda de clima e meio ambiente. Uma análise do Observatório do Clima, baseada no Índice de Convergência Ambiental, aponta que a composição parlamentar tende a apresentar uma maioria pouco alinhada às propostas de fortalecimento das políticas socioambientais no país.
O indicador considera o histórico de votações e a atuação dos parlamentares em temas relacionados à preservação ambiental, ao enfrentamento das mudanças climáticas e à implementação de medidas para tornar a economia brasileira menos dependente de atividades com elevada emissão de gases de efeito estufa.
O cenário preocupa organizações ambientais, que defendem o fortalecimento da legislação de proteção dos biomas brasileiros, a redução do desmatamento, a ampliação das energias renováveis e o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na área climática.
Entre os 81 senadores da próxima legislatura, 64 foram enquadrados nas faixas baixo ou muito baixo, o que representa 79% da Casa. Apenas 17 senadores, ou 21%, ficaram nas faixas com maior convergência com a pauta ambiental.
Na comparação com a legislatura atual, o distanciamento aumentou. O número de senadores com alinhamento baixo ou muito baixo subiu de 58 para 64, reforçando a avaliação de que o Senado tende a ser um espaço ainda mais difícil para avanços em conservação, enfrentamento das mudanças climáticas e adaptação das cidades.
Câmara também terá maioria resistente às pautas socioambientais
Na Câmara dos Deputados, 345 dos 513 parlamentares, ou 67,3%, ficaram nas faixas baixa ou muito baixa. Outros 40 deputados e deputadas foram classificados na faixa boa, e 128 na faixa muito boa, segundo a metodologia usada na análise.
O Observatório do Clima aponta que a piora está relacionada ao crescimento de partidos de extrema direita, historicamente menos alinhados à agenda ambiental. O PL, por exemplo, ampliou sua presença nas duas Casas e passou a concentrar ainda mais cadeiras na próxima legislatura.
Para a coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o cenário impõe quatro anos de forte pressão para quem atua na área ambiental. Ela alerta para riscos de enfraquecimento da fiscalização, anistia a grileiros e redução da proteção de florestas e biomas brasileiros.
O estudo também utilizou fontes oficiais da Câmara, do Senado, de assembleias legislativas e de governos para classificar parlamentares eleitos que ainda não tinham avaliação no índice. A metodologia do Instituto Democracia e Sustentabilidade divide o alinhamento em quatro faixas: muito baixa, baixa, boa e muito boa, de acordo com o percentual de convergência com a agenda climática e socioambiental. (com informações da Agência Brasil)
Congresso terá papel decisivo na política ambiental
A composição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal influencia diretamente o ritmo de aprovação de projetos ambientais, a fiscalização das ações do Poder Executivo e a destinação de recursos para programas de preservação e desenvolvimento sustentável.
Parlamentares alinhados à agenda ambiental costumam defender medidas de combate ao desmatamento ilegal, proteção de povos indígenas e comunidades tradicionais, incentivo à bioeconomia e ampliação de investimentos em tecnologias de baixo carbono.
Em contrapartida, propostas de flexibilização das regras de licenciamento ambiental, mudanças na proteção de áreas naturais e ampliação de atividades econômicas com impactos sobre os ecossistemas podem gerar embates entre diferentes grupos políticos e setores da sociedade.
A correlação de forças no Congresso será, portanto, determinante para estabelecer quais dessas pautas terão prioridade nos próximos quatro anos.
Transição energética entra no centro do debate
Outro tema estratégico será a transição energética. O Brasil possui uma matriz elétrica com participação expressiva de fontes renováveis, mas ainda enfrenta desafios relacionados à utilização de combustíveis fósseis, às emissões de setores econômicos específicos e à expansão de atividades de exploração de petróleo e gás.
A discussão envolve a ampliação da energia solar e eólica, o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis, a modernização da infraestrutura energética e a criação de políticas que conciliem crescimento econômico, geração de empregos e redução das emissões.
A velocidade dessas mudanças dependerá, entre outros fatores, da aprovação de leis, da estabilidade regulatória e da capacidade do governo de construir acordos com os parlamentares.
Pressão da sociedade e compromissos internacionais
O desempenho do Congresso também será acompanhado por organizações da sociedade civil, pesquisadores, empresas e entidades ligadas à defesa do meio ambiente.
O Brasil tem papel relevante nas negociações climáticas internacionais por abrigar a Amazônia e outros biomas estratégicos para a biodiversidade e para o equilíbrio climático global. O país também enfrenta pressões para demonstrar resultados concretos no combate ao desmatamento e na redução das emissões de gases de efeito estufa.
Nesse contexto, a atuação dos parlamentares poderá influenciar a credibilidade brasileira nas negociações internacionais e a capacidade nacional de atrair investimentos relacionados à economia verde.
Desafio será conciliar desenvolvimento e preservação
A avaliação sobre o perfil ambiental do novo Congresso evidencia a importância da articulação política para a aprovação de medidas socioambientais. Mesmo diante de uma composição considerada pouco favorável por organizações ambientais, o resultado das votações dependerá das negociações entre partidos, bancadas temáticas, governo e oposição.
A partir de 2027, o Legislativo terá de lidar com disputas envolvendo o uso dos recursos naturais, a expansão da infraestrutura, a produção agropecuária, a exploração de energia e a proteção dos territórios ambientalmente sensíveis.
O desafio será encontrar caminhos para o desenvolvimento econômico sem comprometer a biodiversidade, a segurança hídrica e os esforços de enfrentamento às mudanças climáticas.
Atenção: a avaliação do Observatório do Clima representa uma análise de convergência entre a atuação parlamentar e a agenda socioambiental. Ela não significa que todos os integrantes do Congresso terão o mesmo posicionamento nem permite, isoladamente, antecipar o resultado de cada votação da próxima legislatura.

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