CRISE NA ARGENTINA: APOSENTADOS PERDEM PODER DE COMPRA E PROTESTOS SE INTENSIFICAM CONTRA MILEI

Política de austeridade do governo argentino mantém pressão sobre a renda dos idosos, aumentam o desgaste político do presidente Javier Milei.

Publicado em 13 de outubro de 2026

A Argentina enfrenta uma nova onda de insatisfação social diante dos efeitos das medidas de austeridade econômica implementadas pelo presidente Javier Milei. A redução do poder de compra dos aposentados, o avanço da pobreza, a perda de empregos formais e as dificuldades enfrentadas por empresas estão entre os principais fatores que alimentam os protestos contra o governo.

Conhecido pela defesa de cortes nos gastos públicos e pela redução da participação do Estado na economia, Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, prometendo combater a inflação, equilibrar as contas públicas e recuperar a economia argentina. Embora o país tenha registrado uma desaceleração expressiva da inflação, os resultados ainda não se traduziram em uma melhora consistente das condições de vida de toda a população.

Aposentados enfrentam perda do poder de compra

Os aposentados estão entre os grupos mais afetados pelo ajuste econômico. Em setembro de 2026, o benefício mínimo chegou a 428.633 pesos argentinos. Com o bônus complementar de 70 mil pesos, o valor total alcançou 498.633 pesos.

O problema é que o bônus permanece congelado há mais de dois anos, enquanto os preços de produtos essenciais e serviços continuam pressionando o orçamento das famílias. A inflação mensal foi de 1,7% em agosto, mas a cesta básica alimentar registrou alta de 2,6% no mesmo período. Em 12 meses, o aumento da cesta ficou próximo de 40%, segundo dados divulgados pela imprensa argentina.

O cenário evidencia uma contradição da política econômica: mesmo com a desaceleração da inflação, os preços continuam subindo, e a renda de parte dos aposentados não acompanha o custo de vida.

O chamado “tesouraço”, expressão associada à política de cortes promovida por Milei, tornou-se um dos símbolos do ajuste fiscal. A redução de despesas públicas e a contenção de benefícios são criticadas por sindicatos, organizações sociais e setores da oposição, que apontam o risco de aprofundamento das dificuldades enfrentadas pela população mais vulnerável.

Pobreza volta a crescer

Outro indicador que preocupa é a evolução da pobreza. Depois de um período de queda em relação aos níveis registrados durante o choque econômico inicial do governo, o índice voltou a subir no primeiro semestre de 2026.

Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec) apontaram que a pobreza passou de 28,2% para 32,3% no período analisado. O aumento reforça as dificuldades de recuperação da renda das famílias, especialmente diante dos custos de alimentação, moradia, transporte e serviços.

O desemprego também permanece como um desafio. A taxa chegou a 7,9%, em um cenário de enfraquecimento de segmentos da atividade econômica e redução de postos de trabalho formais.

A situação amplia a pressão sobre o governo, que sustenta a necessidade de manter a disciplina fiscal para consolidar a estabilização econômica e criar condições para o crescimento no médio e longo prazo.

Mais de 32 mil empregadores deixam os registros

As dificuldades também atingem o setor produtivo. Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT), divulgados pela imprensa argentina, mostram que o número de empregadores registrados caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026.

A redução representa 32.290 empregadores a menos nos registros, uma queda de aproximadamente 6,3%.

O indicador, porém, não significa necessariamente que todas essas empresas tenham encerrado definitivamente suas atividades. A estatística considera empregadores com trabalhadores registrados e pode ser influenciada por reorganizações societárias e mudanças nos vínculos formais.

O mercado de trabalho também apresentou retração. O setor privado perdeu aproximadamente 121 mil empregos formais entre junho de 2025 e junho de 2026, segundo dados do sistema previdenciário argentino.

Entre os fatores apontados para as dificuldades estão os custos operacionais elevados, o crédito caro, a carga tributária e a redução dos investimentos públicos. A valorização cambial também é citada como um elemento que prejudica a competitividade de determinados segmentos da indústria nacional.

Inflação menor não significa vida mais barata

A desaceleração da inflação é uma das principais conquistas reivindicadas pelo governo Milei. O país enfrentava uma escalada de preços que chegou a níveis próximos de 300% em termos anuais antes da implementação das principais medidas de ajuste.

A redução da velocidade dos aumentos, entretanto, não significa que os preços tenham voltado aos níveis anteriores. Quando a inflação diminui, os produtos continuam ficando mais caros, apenas em um ritmo menor.

Esse fenômeno ajuda a explicar por que parte da população continua enfrentando dificuldades, mesmo diante da melhora de determinados indicadores macroeconômicos.

A recuperação do consumo, dos salários e do emprego tornou-se um dos principais desafios da administração argentina. A expectativa de que o controle da inflação fosse seguido por uma retomada mais ampla da atividade econômica ainda enfrenta obstáculos.

Protestos aumentam a pressão sobre o governo

As manifestações de aposentados diante do Congresso Nacional, em Buenos Aires, tornaram-se recorrentes. Os atos denunciam a perda do poder de compra dos benefícios e cobram medidas para proteger a renda dos idosos.

Sindicatos, movimentos sociais e outros setores contrários à política econômica também questionam os efeitos dos cortes nos serviços públicos, nos investimentos e nas políticas de assistência.

A insatisfação representa um desafio político para Milei, que construiu sua campanha com a promessa de romper com o modelo econômico tradicional argentino e promover uma transformação profunda nas contas públicas.

O presidente defende que o equilíbrio fiscal e a redução da inflação são condições necessárias para recuperar a confiança dos investidores e criar bases para um crescimento sustentável. Seus críticos, por outro lado, argumentam que os custos sociais do ajuste estão sendo distribuídos de maneira desigual e cobram medidas mais efetivas de proteção aos trabalhadores e aposentados.

Desgaste político e desafios para a recuperação econômica

O agravamento das dificuldades sociais ocorre em um momento de crescente questionamento sobre a capacidade de o governo transformar a estabilização econômica em melhorias concretas para a população.

A combinação de aposentadorias pressionadas, pobreza em alta, retração do emprego formal e dificuldades empresariais amplia a cobrança por resultados além do controle dos preços.

O desafio de Milei será demonstrar que a política de austeridade pode abrir caminho para uma recuperação econômica capaz de alcançar também os trabalhadores, os pequenos empresários e os aposentados.

Enquanto isso, as manifestações e a insatisfação social indicam que o debate sobre os rumos da economia argentina permanece longe de uma solução. A redução da inflação continua sendo um objetivo importante, mas a recuperação da renda e das condições de vida se tornou uma das principais medidas para avaliar os resultados do governo.

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