Mesmo com ampliação da isenção até R$ 5 mil, impostos altos e serviços precários mantêm sensação de injustiça fiscal no país.

A partir de 1º de janeiro de 2026, trabalhadores que recebem até R$ 5.000 por mês estarão isentos do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF). A mudança, prevista na Lei nº 15.270, sancionada no fim de 2025, foi apresentada pelo governo como um avanço na promoção da justiça tributária e no alívio ao orçamento de milhões de brasileiros. No papel, a medida parece positiva. Na prática, porém, ela pouco altera a dura realidade de quem sente no dia a dia o peso de uma das cargas tributárias mais altas do mundo — especialmente para os mais pobres.
Além da ampliação da faixa de isenção, a nova regra prevê redução gradual das alíquotas para quem ganha entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350, por meio de um desconto decrescente. O discurso oficial é de correção de distorções históricas, fazendo com que uma parcela dos chamados “super-ricos” passe a contribuir com um imposto mínimo. O problema é que, para a maioria da população, o verdadeiro leão não está apenas no Imposto de Renda.

No Brasil, a maior parte da arrecadação vem de impostos indiretos, embutidos em produtos e serviços. Alimentos, energia elétrica, combustíveis, transporte e medicamentos consomem uma fatia desproporcional da renda das famílias de baixa e média renda. Quem ganha menos paga, proporcionalmente, muito mais impostos do que quem ganha mais. É um sistema regressivo que penaliza justamente quem tem menos margem para absorver aumentos de preços.
Enquanto isso, o custo de vida dispara. Supermercado, aluguel, plano de saúde, escola, gás de cozinha e transporte público pesam cada vez mais no orçamento. O salário mal entra e já sai comprometido. A sensação generalizada é de que o brasileiro trabalha meses apenas para sustentar a máquina pública — uma máquina que parece mais faminta e voraz do que o próprio “leão” do Imposto de Renda.
O descompasso entre o que se paga e o que se recebe em troca agrava a indignação. Serviços públicos essenciais seguem precários: saúde sobrecarregada, educação com estrutura insuficiente, segurança pública falha e infraestrutura deficiente. A percepção é de que os impostos não retornam em qualidade de vida, mas se perdem em burocracia e desperdício.
Embora a ampliação da isenção do Imposto de Renda seja um passo simbólico e politicamente relevante, ela está longe de resolver o problema estrutural da tributação no Brasil. Sem uma reforma profunda que reduza a dependência de impostos sobre o consumo e torne o sistema verdadeiramente progressivo, o alívio será sempre parcial — e a sensação de injustiça, permanente.

No fim das contas, o brasileiro continua pagando muito e recebendo pouco. E, mesmo quando o leão afrouxa a mordida de um lado, outros dentes do sistema tributário tratam de lembrar que viver no Brasil segue sendo um exercício diário de sobrevivência financeira.

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