Baixa aprendizagem, desigualdade e déficit crítico ajudam a explicar comportamento do eleitor e o perfil dos representantes no país.

Por Antonio Alexandre, editor e jornalista da RedeTV+
O Brasil chega à terceira década do século XXI com um paradoxo evidente: ampliou o acesso à educação, mas ainda falha em garantir aprendizagem de qualidade. O resultado dessa equação não se limita às salas de aula — ele transborda para o campo político e ajuda a explicar, em parte, a fragilidade das escolhas eleitorais e a baixa capacidade de cobrança da sociedade sobre seus representantes.
Os dados oficiais são claros. Uma parcela significativa da população adulta brasileira não concluiu a educação básica, e apenas uma minoria alcançou o ensino superior. Mais grave do que isso, milhões de brasileiros que passaram pela escola não desenvolveram habilidades essenciais de leitura, interpretação e raciocínio lógico. Trata-se do chamado analfabetismo funcional, um problema silencioso, mas profundamente corrosivo. Os dados são oficiais, fornecidos por instituições responsáveis por sensos no país: IBGE, por meio da PNAD Contínua e do Censo Demográfico, revelam um cenário em que grande parte da população adulta não possui formação educacional suficiente para interpretar com profundidade o debate público, avaliar propostas e cobrar representantes.

Quase 40% dos brasileiros não concluíram a educação básica, o que limita diretamente a capacidade de compreensão crítica da realidade.
O impacto é direto. Uma população com dificuldades de compreensão tem mais obstáculos para interpretar propostas políticas, identificar desinformação e avaliar criticamente discursos. Em um ambiente cada vez mais dominado por redes sociais e informações fragmentadas, essa limitação se torna ainda mais preocupante.
É preciso dizer com clareza: o principal problema da educação brasileira hoje não é o acesso — é a qualidade da aprendizagem. O país escolarizou, mas não educou plenamente. Crianças entram na escola, avançam de série, mas muitas não aprendem o básico no tempo adequado. Quando a alfabetização falha nos primeiros anos, toda a trajetória educacional fica comprometida.

Esse cenário não é fruto de um único governo ou de uma decisão isolada. Trata-se de uma construção histórica marcada por desigualdades sociais, descontinuidade de políticas públicas e falta de prioridade consistente na educação de base. Ainda assim, seus efeitos são atuais — e profundamente políticos.
A relação entre educação e política é direta e inevitável. O nível educacional da população influencia a qualidade do debate público, o comportamento do eleitor e, consequentemente, o perfil dos eleitos. Forma-se, assim, um ciclo difícil de romper: baixa qualidade educacional limita o voto consciente, que por sua vez impacta a escolha de representantes e a formulação de políticas públicas, perpetuando o problema.

Não se trata de afirmar a existência de uma estratégia deliberada para manter a população desinformada. Mas é inegável que há uma dinâmica estrutural que não favorece a rápida elevação da formação crítica do eleitorado. A educação, embora reconhecida como prioridade no discurso, frequentemente perde espaço na prática.
Há, no entanto, pontos de convergência que precisam ser destacados. Especialistas de diferentes correntes concordam que o fortalecimento da educação básica, a valorização dos professores, a melhoria da alfabetização na idade certa e o desenvolvimento do pensamento crítico são essenciais não apenas para o crescimento econômico, mas para a própria saúde da democracia.

O Brasil não enfrenta apenas um desafio educacional — enfrenta um desafio civilizatório. Sem uma base sólida de formação, a democracia corre o risco de funcionar de maneira limitada, sustentada por uma participação que nem sempre é plenamente consciente.
A política brasileira, nesse contexto, não pode ser analisada isoladamente. Ela é, em grande medida, reflexo direto da formação educacional do país. Melhorar a qualidade do voto passa, inevitavelmente, por melhorar a qualidade da educação.
Romper esse ciclo exige mais do que discursos. Exige compromisso de longo prazo, continuidade de políticas e, sobretudo, a compreensão de que investir em educação não é apenas uma escolha administrativa — é uma decisão estratégica sobre o futuro da democracia brasileira.

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